[Ensaio] Construindo uma colcha de retalhos sonoros em BH


A proposta deste ensaio é apresentar minha impressão sobre a caminhada sonora feita com a turma de pós graduação em Processo Criativos no entorno de nossa sala de aula, na região da praça da Liberdade, percebendo os sons ali existentes. Para ajudar nesta apreciação auditiva, utilizei como norteadores os textos “Limpeza de Ouvido” e a introdução do livro “Afinação do Mundo” de Schafer e o material “Paisagem Sonora Urbana: escutas de Belo Horizonte” de Viana (2014). Schafer indica um caminho para esta análise: “o que o analista de paisagem sonora precisa fazer, em primeiro lugar, é descobrir os seus aspectos significativos, aqueles sons que são importantes por causa de sua individualidade, quantidade ou preponderância”. Desta forma identifiquei os sons fundamentais – aqueles que nem se ouvem de tão rotineiros -, sinais sonoros – avisos acústicos do ambiente -, e marcas sonoras – sons característicos de um determinado local qualificando-o. No entanto, assim como Vianna, entendi que “(…) tais definições de Schafer são tentativas de sistematizar os elementos da paisagem sonora.” (Vianna, 2014 – p.85). Por isso, além da classificação sonora, farei a descrição da mistura sonora existente ao longo do caminho que considerei como uma imensa colcha de retalhos sonoros.

COSTURANDO UMA COLCHA DE RETALHOS COM SONS

A caminhada iniciou no prédio da PUC na rua Cláudio Manoel e o trajeto contornou a praça da Liberdade, pasando por parte do bairro funcionários até retornar ao ponto inicial. Considerando que “ruído é qualquer som que interfere”, segundo Schafer, minha péssima escolha de calçado (uma bota confortável, mas com salto pouco discreto), gerou um ruído constante que acompanhou todo o passeio. Percebi ao longo do caminho que os passos, além do barulho da bota, geraram outros sons como a pisada em tampas de bueiros ou folhas ao chão.

Logo na saída, cruzamos com alunos em trânsito para as aulas e com isso muitos trechos de diálogos, inclusive de pessoas que estranhavam a atividade, estiveram presentes na paisagem. “Aquele povo está doido, fazendo até anotação” foi um dos estranhamentos que consegui captar com clareza. Os demais foram trechos de frases pela metade ou palavras soltas.

Os sons do motores dos carros, motos e ônibus predominaram em todo o trajeto variando apenas a intensidade – mais forte no início, mais tranquilo no final – e, por isso, considerei como sons fundamentais. O trânsito intenso de automóveis é ainda marcado por sinais sonoros insistentes: buzinas impacientes dos motoristas que tentam chegar aos seus compromissos (mas provavelmente estão atrasados). Os semáforos sonoros aparecem em alguns momentos do passeio e têm uma característica que julguei interessante: podem ser sinais sonoros para os deficientes visuais, mas para os videntes soam como sons fundamentais ou ruídos.

E como estamos tratando de uma observação dinâmica, em que eu era uma observadora em movimento, mais uma série de sons aparecem costurados ao longo do caminho formando uma colcha de retalhos auditiva com pedaços inusitados. Alguns a minha memória me roubou, mas destaquei os que entendi como sendo mais marcantes.

Logo nos primeiro minutos cruzamos com um tocador de ukulelê se apresentando no semáforo e sua participação sonora aparece pincelada em meu registro. Mais adiante o banner do Museu das Minas e dos Metais começou a brigar com o vento. O som era mesmo de uma luta com batidas repetidas que diminuiam toda vez que o vento resolvia parar de revidar. Os ônibus que passavam por nós e paravam no ponto ao nosso lado roubavam minha atenção auditiva por muitas vezes. Além do barulho do motor, seu freio grita com uma força difícil de ser ignorada. As folhas secas no chão tentavam chamar a atenção e, mesmo não saindo no meu arquivo gravado pelo celular, guardei na memória o som delas dançando com o vento ou sendo pisadas propositalmente pela Marina. Passamos por um caminhão parado mas com som imponente. Não identifiquei se ele estava em manutenção, mas era um som alto e forte que se destacou no cenário sonoro. Uma vassoura trabalhando após o expediente também marcou o trajeto que havia silenciado após passarmos por uma quadra viva de apitos, gritos e barulho de tênis arrastando no chão. Retornamos ao prédio após quase uma hora de caminhada.

Durante todo o trajeto havia uma regra. Os alunos e professor não conversariam ou emitiram sons e nos comunicaríamos por gestos. Assim, e pensando que “o silêncio é uma caixa de possibilidades”, segundo Schafer, nosso silêncio possibilitou que “tudo pudesse acontecer para quebrá-lo”. Percebi que foi a partir dele que todos os outros sons puderam ser percebidos com mais vivacidade e detalhamento e assim puderam ser registrados, degustados, apreciados e costurados neste texto

 

BIBLIOGRAFIA

VIANNA, Graziela Mello. RESGATE – VOL. XXII, N.28 – JUL./DEZ. 2014 p. 81-90

SCHAFER, R. Murray. A afinação do mundo: uma exploração pioneira pela história passada e pelo atual estado do mais negligenciado aspecto do nosso ambiente: a paisagem sonora. São Paulo: Editora UNESP, 2001

SCHAFER, R. Murray. O Ouvido Pensante. São Paulo: Editora UNESP, 2012

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